domingo, 19 de abril de 2015

Exílio sob olhares de Bastet

     Vim parar na terra da longa nuvem branca depois de muito sonhar com isso. Houve sempre um fascínio. Vendo fotos, filmes. Algo muito como um paraíso na Terra e até hoje eu acredito que já tenha sido um perfeito Éden, antes dos humanos chegarem aqui. 
     A Nova Zelândia é um país maravilhoso. Só não posso dizer perfeito porque já contém o câncer. A terra, que não continha mamíferos terrestres de quaisquer tipos é hoje em dia cheia de gambás, doninhas, cervos e outros animais trazidos pelos, tipicamente malditos, seres humanos. A terra era um paraíso de pássaros e vegetações únicas. Totalmente isolada do mundo, esse pedacinho de paz demorou muito a ser descoberto por homens. Os Maoris, povo nativo daqui, só chegou por volta do ano de 1250, 1300 DC. Antes, esse país era, de fato, inabitado por mamíferos terrestres, quaisquer fossem. Por isso há tantos pássaros únicos, muitos que inclusive não voam pois não tinham predadores. A chegada dos homens, primeiramente grupos da polinésia que vieram a constituir o povo Maori e posteriormente os europeus, por volta de 1650, que desencadeou o processo de destruição desse ecossistema único no mundo.
     A Nova Zelândia é única, mas o que há de único aqui não é tão evidente assim. Visitando cidades e afins pouco pode ser notado. São apenas cidades de padrão inglês com a pitada da cultura local. A cultura Maori é atraente e bela, mas sua beleza não é nada comparada com o esplendor da terra por ela dominada. 
     Esse esplendor a que me refiro não é percebido em cidades e vilas, não é percebido levando esse modo turistante de conhecimento de um lugar ou o modo de vivência do mesmo. 
     Eu moro aqui e no meu dia-a-dia não sou capaz de perceber isso porque é muito sutil. É como a radiação cósmica de fundo, é algo que está aqui, em todo lugar, mas existe tanto barulho, tanta agitação, tanta contaminação, que não se nota. Para mim, apreciar o esplendor desde país exige um estado quase meditativo e isso é muito desafiador e está me fazendo sofrer com um exílio forçado por mim mesma. 
     Eu estou exilada. Minha vida aqui é como um eterno estado de torpor. Eu sofro em cada passo. Não é exagero, eu sofro a cada passo que dou aqui. Acordo com um terrível peso nas costas e um desgosto horrendo como se estivesse carregando 700 kg de correntes apertadas nos meus tornozelos. Leitor... Esse país me faz sofrer. 
    Eu amo esse país e meu amor por ele me faz sangrar em desespero. Posso lhe contar sobre as vezes que chorei de perder o fôlego. Chorei até querer morrer, até querer buscar conforto no suicídio. 
   Levianos dirão que estive "home sick", mas eu me conheço e não era essa a motivação. Óbvio que houveram momentos em que senti falta do Brasil, família e amigos mas a falta deles é meu menor problema. 
   Eu sofro neste país porque estou sozinha, no meio de milhares de pessoas vivendo em uma realidade apêndice em um contexto muito mais belo.
   Eu poderia estar ridiculamente feliz. Não estou porque estou presa. Estou presa em uma bolha da sociedade ocidental em uma Terra livre e feliz e mais do que isso, extremamente convidativa. 
   Imagine-se preso em uma bolha, poluída, com pessoas mesquinhas e materialistas, vivendo seu dia-a-dia de maneira superficial e medíocre, uma vidinha de bosta resumida a ir trabalhar/estudar e depois voltar pra casa lavar louça, terminar relatório e o raio que o parta e você sofre com essa vidinha de merda... Você sofre porque é capaz de ver através desta bolha... Fora desta bolha existem árvores muito altas, samambaias, pássaros de todos os tipos e cores, voando e cantando alegremente. Durante a noite o silêncio impera, silêncio absoluto e milhões de estrelas ridiculamente bem visíveis. Como você pode viver tranquilo dentro da bolha ocidental da vidinha de merda sendo continuamente seduzido pela realidade exposta fora da bolha? A resposta é simples: Você não consegue. 
    Eu não consigo. 
    E é por isso que sofro aqui.

    Lembro-me de quando fiz minha primeira viagem neste país... Sozinha... Era inverno, o vento (que em determinados locais daqui é extremo, diga-se de passagem) me acobertava, gelado, mas, paradoxalmente, acalentador. As pessoas ficavam socadas dentro de Cafés, com seus aquecedores ligados em 40ºC e não botavam o nariz para fora. Eu viajei durante dias úteis, para cidades super pequeninas. A quantidade de pessoas nas ruas era mínima e eu amei cada segundo. Amei cada segundo porque o frio sobrepunha a vontade desse ocidentalismo de "domar" o mundo exótico que é este aqui. E eu, que prezo 100% de connection with the land podia andar por aí linda e formosa, aceitando e vivendo livremente a realidade de que eu sou PARTE do mundo e não que este é subordinado a mim. 
    Tudo muda quando a sua conexão com o ambiente é de respeito e entrega... O mundo ao seu redor lhe tira suas amarras porque você é parte dele, portanto é também livre como ele é, pois vocês são Uno. Eu não existo assim como você também não, o que existe é essa terra e somos PARTE dessa dela e isso é lindo... Ela é linda... Como viver a sua vivinha medíocre se poderia estar por aí, observando as águas escorrendo livremente por entre as rochas em um rio, ou deitada aos pés de uma árvore observando os pássaros sobrevoando florestas densas e úmidas. COMO??? 
  Quando eu voltei daquela viagem eu estava revigorada. Era como se eu tivesse zerado o meu reloginho do estresse, como se tivesse zerado a contagem de preocupações. Era como se eu tivesse nascido novamente. Parecia a primeira vez que estava pisando na cidade em que moro, Wellington, a capital. Inclusive demorei ao menos uns 10 minutos para relembrar caminhos, nomes de ruas, pontos de referência, inclusive onde morava. Fiquei assustada no início... Me perguntei o que estava acontecendo quando desci do ônibus de viagem, no mesmo ponto onde havia embarcado, na ida, e fiquei com medo. Fiquei com medo porque havia esquecido. Tudo. A minha mente estava em branco em relação àquele lugar. Não havia registro. Senti vontade de chorar até que entendi que eu havia me desconectado do "ocidentalismo", do lifestyle materialista por 5 dias e era difícil se entregar novamente. Eu havia me conectado com a verdadeira realidade. Eu havia saído da matrix e estava voltando pra ela com minhas próprias pernas mas relutantemente.
   Após reconhecer isso eu fui voltando aos poucos, lembrando de coisas e lugares... Mas ainda olhava tudo com a curiosidade de quem vê pela primeira vez, o que, definitivamente, não era o caso.
    Essa é a raiz do meu sofrimento nesta terra. Eu a amo demais para me contentar com minha rotina de universidade/academia/comer/dormir. 
     Isso também, diga-se de passagem, é um dos principais motivos que comprometem a qualidade do meu estudo aqui. Eu ODEIO o sistema de educação superior deles, o que, aliado à tudo que descrevi, torna as coisas muito mais difíceis e as notas... muito mais baixas.

     Por tudo isso gosto de definir a minha experiência aqui como "Exílio".
    Exílio porque a sensação de solidão é como nenhuma outra. Exílio porque não gostaria de estar vivendo aqui deste jeito. É o Exílio que está definindo minha vida. É este Exílio que está me tornando uma pessoa forte e com amplo conhecimento de si e das pegadas que desejo seguir. Este Exílio é um divisor de águas. Esse torpor que me corrói me faz crescer. Me faz amar. Me faz querer viver e me faz querer vencer para ser capaz de vir aqui mil vezes para me conectar com a Realidade. 
      Reconheço que essa jornada seria possível no Brasil, mas minha Terra Natal representa uma zona de conforto que dificulta esse enlightenment em relação ao nosso Mundo. Sem contar que no Brasil somos 200 milhões, regiões metropolitanas que contém muito mais do que a população inteira da Nova Zelândia. Isso faz com que seja muito mais difícil ver através das paredes da bolha social em que vivemos, portanto nos acostumamos e nos convencemos que o interior da bolha é a realidade original.
      Isso é justamente como a Alegoria da Caverna, de Platão. Eu sempre tive convicção da caverna em que vivemos em nossa sociedade "civilizada", mas eu tive que vir pra cá, no fim do mundo, onde a entrada da caverna ainda é suficientemente grande, pra ter 100% de certeza disso. E eu fico muito triste, mas infinitamente feliz ao mesmo tempo. Neste lugar eu achei o meu lugar... E meu lugar é o Mundo... 
       O meu lugar é o Mundo e não o Humano.

Depois de muita caminhada

     Este é o meu terceiro blog. Os outros dois representam uma dicotomia das visões de mundo sob a perspectiva da minha personalidade.
    Escárnio sem sentido, com título inspirado em trecho de Álvares de Azevedo, era (é) alimentado pelos meus surtos de depressão, indignação e ansiedade. Não é um blog feliz. Até o layout é deprimente.  Não é sobre libertação daquele poço, é sobre reconhecimento do mesmo e aceitação da condição e não negação. Fiz 74 postagens lá até que a fase mais pesada da minha vida foi passando e percebi que não havia mais o que ser escrito por mim, naquele contexto apresentado. Foi então que criei o Benemérita Vida, que era apenas um blog melancólico. Melancólico porém feliz. Era sobre uma cura, a beleza de abrir os olhos para uma nova realidade. Marcou o processo de início de libertação do meu ego e a definição de meus próprios caminhos, que levariam à minha satisfação pessoal. Foi a época em que saí de casa para morar sozinha em outra cidade, começar na universidade e finalmente definir o meu caminho. Era melancólico pois as feridas da condição anterior ainda estavam lá, mas elas estavam cicatrizando, por isso era feliz.
    Contrariando o que eu esperava, a cura foi bastante rápida. Talvez principalmente porque eu estava preocupada demais com estudos e responsabilidade demais nas costas pra reparar no processo de cura. Naquele blog eu fiz 5 postagens. 5. Tendo sido a quinta escrita 3 anos após as outras e foi praticamente uma despedida, pois há um ano atrás eu já sabia que aquele tempo já havia passado e sentia que não tinha mais o que escrever naquele contexto.
    Por isso eu resolvi criar este aqui, que eu acredito que vá ser capaz de permitir qualquer tipo de postagens pro resto da minha vida. Não que eu tenha chegado ao fim do meu processo de construção de Self, mas porque ele é sobre mim, sobre minhas experiências, sobre minhas reflexões e não sobre aspectos específicos da minha vida ou de minha personalidade.
    Criei esse espaço com a intenção que ele abarque todos os aspectos que concernem a mim. Espiritualidade, visões políticas, ideologias, coisas banais como "hoje um passarinho cagou em mim" até os desafios da vida acadêmica e profissão. Nada será capaz de fugir do escopo deste espaço. Certas vezes estarei triste, certas vezes estarei transbordando de felicidade. Ambas situações caberão aqui.
    Se eu for fazer um blog para cada mazela da minha personalidade e da minha vida vou acabar usando mil domínios e em cada um haverá uma mísera postagem.
     Pretendo manter este aqui pra sempre.
     Sempre deixando claro que não há nenhuma previsão de regularidade.
Eu não tenho leitor algum e esse é um dos motivos. Nunca disse "Ei fulane, sabia que eu tenho blogs? Acessa lá." E porque nunca fiz isso? Porque não há regularidade alguma. Existem fases da minha vida em que não quero escrever sobre nada, mesmo que há alguns anos esse tenha sido meu passatempo favorito. Com "Escárnio sem sentido" eu até fiz uma "divulgação". Mas se restringiu a 3 ou 4 amigos e um ou dois familiares. Nada além.
   Há um fator também de certa repulsa em relação à criação. Quando eu comecei o primeiro blog com afinco eu tinha 15 anos... Mais de 6 anos atrás. Eu odiava os meus textos. Pensava "Credo", mas clicava no "Publicar" mesmo assim. Hoje em dia, quando leio, penso "Parabéns girl. Muito bom"

   Enfim, deixo aqui os links dos outros dos blogs, inclusive do meu Tumblr, onde pretendo postar eventuais fotos e diálogos marcantes. Todos abrem em outra aba ;)

Escárnio sem sentido
Benemérita Vida
Stupidity for Misconception (Tumblr)